Shuggie Otis – Inspiration Information

Os discos que você encontra no Ventiladores possuem automaticamente uma espécie de selo de qualidade superior dos autores brisas que postam coisas, mas alguns albums não necessariamente precisam desse tipo de “curadoria” eles estão em um nível superior, em que até o afegão médio sabe que está ouvindo algo diferenciado, é a categoria de discos lendários, aqueles que sobrevivem ao teste do tempo e continuam relevantes pra sempre, e claro, gostamos de perder um tempo só para relembrar o quanto bom o disco X e Y é.

Shuggie Otis é uma dessas lendas que nunca possuiu mídia suficiente para ser reconhecido imediatamente, nem mesmo pela mídia especializada, mas sejamos honestos, mesmo com hits na billboard Otis nunca foi um autor muito prolífico, tem apenas 3 discos na bagagem numa carreira que se estende há quase 50 anos, além disso nosso objeto de admiração do post Inspiration Information nem foi seu disco a chamar mais atenção em seu período de lançamento, mas quando se deseja listar ou ouvir algo inacreditávelmente bom inspirado no soul dos anos 70 com certeza você precisa mencionar esse album.

Filho de Johnny Otis, considerado o padrinho do R&B,  Shuggie Otis cresceu no ambiente da música e sua criatividade aflorou logo cedo. O garoto, muito habilidoso com a guitarra tocou para ícones da música como Etta James, Al Kooper e B.B. King, este último o considerava seu jovem guitarrista favorito no começo da década de 70.

Após a saída de Mick Taylor do Rolling Stones, Otis chegou a ser convidado para tocar em seu lugar e sabe-se lá por que recusou, provavelmente por que acreditava em seu talento e queria ficar famoso por sua própria conta, assim apostou todas suas fichas na produção de Inspiration Information. O cara ficou cuidadosamente escrevendo e arranjando cada faixa por 3 anos, tocando todos os instrumentos praticamente sozinho, o que gerou uma expectativa enorme para o resultado final, mas que infelizmente não se converteu em sucesso comercial.

O disco era psicodélico demais para o grande público e não convenceu os mais alternativos, seu som estava muito à frente de sua época e isso causou o esquecimento de Shuggie que não conseguiu mais fechar contrato nenhum com gravadora, até que David Byrne, um dos fãs de seu som, resolveu relançar o disco em 2001 pelo seu selo Luaka Bop, fazendo ressurgir suas canções e iniciar uma onda de samples por grandes artistas de hip-hop e até algumas turnês, talvez por isso algumas músicas sejam estranhamente familiares, você pode ter ouvido alguém mandando rimas por cima da voz afinada de Shuggie, um meio termo entre Curtis Mayfield e Bill Withers.  

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The Soundcarriers- Entropicalia

O baú de novidades do Ventiladores traz mais uma pequena notável banda o Soundcarriers

O título do album Entropicália já entrega uma grande influência do grupo: o movimento da tropicália, mas a versão bem internacional da coisa, já que os integrantes são todos do Reino Unido, o que acaba por resumir as semelhanças no experimentalismo sonoro e uma boa dose de psicodelismo, mas esse distanciamento também reflete na vontade de levar o som dos anos 60 a novos ares, misturando-o a elementos modernos de Dream Pop com texturas e timbres complexos. Também é possível ouvir ecos de sons progressivos como Can, Jethro Tull e  Mutantes. Um disco não necessariamente imperdível mas excelente em sua proposta.

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The Black Angels – Passover

Alguém tão cético como eu nunca imaginaria que uma banda poderia assombrar uma pessoa, mas esses “Anjos Negros” conseguiram finalmente o que eles queriam, depois de anos martelando lentamente minha mente vou passar a palavra dos caras pra frente e ver se me livro dessa maldição.

 

Minha introdução à banda teve seu início há mais ou menos 3 anos, enquanto eu vasculhava uma das pastas “baú de tralhas” em que ficam vários albums que um dia eu talvez vá ouvir. Entre um next track após o outro começa a me tocar Black Grease com um riff distorcido e pegajoso que logo me fez pensar em Black Rebel Motorcycle Club e os primeiros discos do Black Keys, achei legal mas não me prendeu a atenção o suficiente e logo já me encontrava  pulando para a próxima banda. Mais tarde estou voltando pra casa de carona, quando eu peço pra colocar na agora defunta 107.3 ou Brasil 2000  e um certo riff familiar começa a tocar… “que coincidência legal” pensei na hora, sem saber que tais eventos iriam acontecer com uma frequência um pouco pertubadora. Coincidência ou não a 107.3 no fim do mês anunciou que ia terminar sua programação e fundir-se com a rádio Eldorado.

Por onde eu andava parecia haver referências ao Black Angels, gente postando as músicas dos caras em notícias de guerra, música de fundo de loja de eletrônicos, na TV, em filmes, os caras estavam por todos os lados! Eu até resolvi deletar a porra do album do computador num ato de mandinga pra ver se eles paravam de aparecer e meio que deu certo, por algum tempo a banda parou de “pipocar” , quando eu já nem lembrava mais deles como pneumonia mal curada, eles resolveram aparecer com um disco novo e voltaram a atormentar meu cérebro, mas a gota d’agua foi ouvir o single Young Men Dead na música de encerramento de True Detective, logo no primeiro episódio… vale lembrar que a série lida com ocultismo, seitas macabras e filosofia enquanto investigam crimes inspirados em horrores ficcionais no estilo H.P. Lovecraft, prato cheio pra mindfucks.

Mas tirando o fato que a banda te deixa biruta ela tem muitas qualidades, se você curte rock psicodélico que gosta de evocar temas psicológicos construídos a partir de eventos emocionais intensos simbolismos e amarrrados na discussão de temas grandiosos como guerra, violência, sociedade moderna, morte, religião, intolêrancia, loucura, ansiedade e drogas a banda é perfeita. Eles têm como influências o proto-punk de bandas como Stooges e Velvet Underground, misturados ao rock clássico de Jimi Hendrix e Deep Purple.

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BADBADNOTGOOD – III

Vira e mexe aparece um album que me deixa igual criança abrindo brinquedo novo, às vezes até sai até um sorriso nos lábios enquanto ouço a faixa X ou Y. É mais ou menos como me  lembro da sensação de ouvir o In Rainbows do Radiohead numa viagem de ônibus mais longa e me sentir privilegiado de poder apreciar um album tão legal com tamanha riqueza de detalhes, o sentimento de ouvir III do BADBADNOTGOOD foi particularmente muito semelhante a esse momento.

Imagine a estrutura complexa de compassos de math-rock/jazz com o peso do hip-hop injetadas numa única banda e você tem um rascunho do que é o BBNG, que evolui inicialmente de uns caras querendo fazer covers em jazz de artistas de hip-hop alternativos como MF Doom e o coletivo Odd Future, o que acaba por ser uma analogia à tradição de reinterpretação de “standards” americanos do jazz clássico, que ao longo do século XX nos forneceu algumas das performances mais incríveis da música ao serem refeitas ao som de mestres como Miles Davis e John Coltrane.

A experiência do trio saiu melhor do que qualquer um podia esperar:Dois discos com excelentes  melodias, batidas envolventes e uma capacidade de misturar sons eletrônicos com instrumentos clássicos sensacional, mas no número III, como vilões de desenho japonês escondendo seu verdadeiro poder, eles lançam um album só de composições próprias e mostram o quanto eles ainda podem surpreender. III é mais orgânico e elaborado, como uma apresentação ao vivo que pulsa junto com a audiência, permitindo o improviso transparecer nas composições.

Há  em III uma tentativa clara de de buscar uma identidade sonora própria e é aí que está a beleza da coisa, eles estão fazendo o caminho inverso da costumeira utilização de samples de jazz em composições de hip-hop, para concentrarem-se num som de jazz com elementos de hip hop. Pode parecer coisa de artista pós-moderno, mas o resultado não fica apenas como um exercício de estética, abre um nicho inteiro para ser explorado, falta agora uma cena de jazz-hop, calcada não no turntablism/scratch de caras como RJD2 e Cut Chemist, mas na improvisação dos instrumentos, enquanto isso fique sorrindo como eu ao som cabuloso de Can’t Leave The Night


 

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Madlib – Shades Of Blue


Há muita mística envolvida quando se fala de jazz, ele é logo associado a virtuosismo musical  e de díficil “digestão”, o que nada é mais que um preconceito por falta de contato mesmo com os discos icônicos do gênero e uma certa preguiça mental que leva a ouvirmos as mesmas canções de novo e de novo e de novo…

O jazz que eu estou falando aqui é aquele que toca os sentimentos, nos transmite sensações e possibilita conectar os músicos com os ouvintes. Uma música pop pode fazer o mesmo de forma muito mais simples e eficiente, mas perde-se toda a originalidade no processo, sacrifica-se profundidade e  a excepcionalidade da arte em prol de um refrão memorável.

Poucos souberam fazer um jazz que misturasse a apreciação sonora com sucesso comercial. Desses os meus favoritos e de muita gente são os discos produzidos pelo selo Blue Note Records, que além de contar com artistas do naipe de John Coltrane, Sonny Rollins, Art Blakey e Donald Byrd possuia técnicas de gravação únicas que tornavam as gravações carregadas e cheias de presença, ao contrário do costumeiro som “espaçado” de outros discos de jazz.

A mitologia que envolve esses músicos do jazz perdura até hoje e diversos artistas contemporâneos como A Tribe Called Quest, The Roots e Dr. Dre adoram samplear músicas da Blue Note, mas Madlib resolveu criar um disco inteiro de músicas com samples do catálogo misturados com batidas de hip-hop e música eletrônica pra fazer um disco muito foda e que ainda conta com alguns curtos depoimentos dos artistas, experimente o fino do jazz de forma diferente, garanto que você vai gostar.

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Rival Sons – Head Down


Antes de mais nada certifique-se que você pode elevar o volume do seu aparelho de som a níveis não recomendáveis por seu  Otorrinolaringologista. Se a resposta for negativa, volte quando puder fazê-lo, aqui no Ventiladores prezamos por Rock’nRoll tocado como se deve: Alto e com estilo

Manja aquela banda maneira do colégio/faculdade que faz uns covers nervosos de clássicos como Led Zeppelin, The Who e The Doors? imagine se eles resolvessem compor umas letras próprias e adicionar toques pessoais a riffs que poderiam ter saído de Led II e outras composições mais anos 90 como Jeff Buckley e Jet e Pronto! Você tem o Rival Sons um dos sons “revival” mais competentes que já ouvi pela internet.

Não espere o virtuosismo dos sons clássicos e nem a abordagem primitiva do White Stripes, mas sim  um som que promete energizar o ambiente com jams potentes e baladas dignas de recordação, extremamente líricas e que demonstram a capacidade técnica do vocalista em alcançar notas complicadas. Os tipos de músicas que recheavam as paradas dos anos 70/80 e acabaram encolhendo até virar seu próprio nicho, mas sempre aparece alguém como o Rival Sons pra lembrar como é bom ouvir alguém rasgando a guitarra.

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Sun Kil Moon – Benji

Existem alguns artistas que você fica se perguntando: Porque ficam rasgando seda pra esse cabra? Você ouve, ouve mais um pouco, lê sobre o assunto, pede a opinião dos outros, e a pergunta continua lá como um mosquitinho chato de verão te incomodando enquanto você tenta assistir tv ou dormir.

O fato é que eu nunca tinha entendido qual era a desse Sun Kil Moon, meio que resumindo é o que sobrou do Red House Painters, uma banda indie de pop/rock com aquele som triste bem anos 90 e fãs em números reduzidos mas definitivamente fiéis. O nome é  interessante, uma homenagem ao boxeador sul coreano Moon Sung Kil ou Sung Kil Mon campeão mundial dos pesos galo, aliás o boxe é uma grande inspiração para algumas das letras do vocalista Mark Kozelek, que adora falar de coisas bads, como morte (principalmente de boxeadores jovens), memórias traumatizantes, tragédias e decepções.

Aí que eu entro e falo que ele passou dessa fase tensa e agora lançou um disco lindo sobre o amor e os prazeres da vida e por isso resolvi postar esse disco sensacional, bom na verdade não, praticamente todas as canções de Benji falam sobre alguém que morreu ou está morrendo, isso deixa o clima do disco tão mórbido que ele chamou o disco de Benji que é o nome de um filme bonitinho de um cachorro que salva duas crianças, bem sessão da tarde pra dar uma animada no disco, mas o que surpreende é que ao invés da depressão tomar conta do clima do disco parece que o contrário acontece, você cria uma empatia enorme com as descrições dos personagens de Kozelek, suas paixões, suas ambições, hobbys e as pessoas que fizeram parte dessas vidas que terminaram.

Você chega a se sentir um intruso ao ouvir declarações tão íntimas sobre a personalidade de alguém que você nem conhece, tamanha a capacidade de transmitir sentimos da banda, aí que eu entendi qual o burburinho todo sobre esse cara, canções como I Can’t Live Without My Mother’s Love e Dogs são um soco no estômago, peças dignas de grandes nomes como Neil Young, Patti Smith, Bob Dylan e Lou Reed. A diferença é que esses artistas costumam colocar 2 ou 3 canções íntimas em meio a um disco com outros tipos de temas explorados como baladas e canções pops, o Sun Kil Moon resolveu fazer um disco inteiro nesse formato de canções íntimas. O resultado é pesado como díficilmente você verá por aí, não há uma busca por universalidade ou por arquétipos, você poderia ter conhecido essas pessoas ou não, o particular é mais importante e por isso é genial.

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