Black Alien – No Princípio Era o Verbo – Babylon by Gus, Vol. II

Parece até um delírio ouvir essas músicas, nada mais, nada menos que 10 anos de espera até seu lançamento. O “Chinese Democracy” do rap nacional agora finalmente pode ser apreciado por todos.

O Mr Niterói volta para exercer o trabalho após uma longa pausa, considerava que não tinha o que falar e a preguiça acabava falando alto também, mas ele estava mesmo é tentando arrumar a casa mentalmente e físicamente. A trajetória do cara nunca foi muito tranquila, cheio de problemas com drogas, bebedeira e depressão. Caberia uma cinebiografia desse que é um dos mais talentosos e influentes rappers brasileiros,

Quando Gustavinho Black Alien anunciou um crowdfunding para a produção e prensa da continuação do seminal Babylon By Gus Vol I em 2011, todos acreditaram que finalmente a bagaça ia sair, mas o que não faltou foram razões para novos atrasos, claramente abatido e consumido pelos hábitos nada saudáveis, ele resolveu fazer o mais sensato e se internar para tratar de seus vicios. Mesmo durante o tratamento a  composição do disco continuou, mas pra um cara acostumado a um processo criativo regado a alteradores de consciência, foi como voltar a infância e ter que aprender a andar novamente, o famoso branco virou companheiro constante do Black Alien,

Mas ainda bem que essa história tem um final feliz. O disco está aí pra provar que passo a passo, as coisas foram saindo e ele hoje, considera estar de volta muito melhor, fisicamente e mentalmente. A lucidez o fez ser mais crítico com seu próprio trabalho, seus shows agora não são mais um borrão na memória automática. Gustavo diz estar ciente de tudo em sua volta, uma clareza que lhe agrada. Ver os rostos do público felizes e reconhecer alguns dos fãs mais frequentes. Essa clareza também está refletida nas canções, mais concretas e menos metafóricas, muitas rimas servindo como terapia para ele mesmo, que busca uma mensagem positiva sem ser careta. Em meio a tanta desgraça e exemplos destrutivos, ele mesmo faz sua mea culpa, sua opinião é de que precisamos mais de heróis que não morrem de overdose para cultivar uma juventude melhor.

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Eddie – Morte e Vida (tweet post)

O som de Pernambuco sempre agradou ao Ventiladores, a Banda Eddie especialmente é uma das que consegue melhor traduzir a riqueza da terrinha do Frevo. Enquanto a Nação Zumbi ficou conhecida pelo peso do maracatu, o Eddie tem uma sonoridade mais festiva e preguiçosa, como um carnaval que já dura um tempão mas ninguém nem cogita em parar, no máximo diminuir o ritmo.

Morte e Vida não faz feio diante da discografia da banda, consegue equilibrar frevo, rock, samba e reggae com alguns toques novos de bolero fazendo as canções ficarem ainda mais poéticas e sentimentais. O vocalista Fábio Trummer entra no sexto disco com maturidade produzindo e compondo praticamente tudo.

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Marya Bravo – COMPORTAMENTO GERAL (Canções da Resistência)

Quando se fala de música anti-establishment  traduzido porcamente como: elite social, econômica e política de uma país, grupo de indivíduos com poder e influência em determinada organização ou campo de atividade, atualmente associamos logo ao rap que permanece carregando essa bandeira de revolução e protesto. Mas nem sempre foi assim, antes o Rock e suas sub-categorias bradavam aos 4 cantos sua insatisfação com a sociedade em que vivam, ouvir música de rock era considerado coisa de gente “rebelde” e motivo de brigas e discussões.

Hoje nesse cenário pós contemporâneo que vivemos, tão volátil não há mais barreiras claras onde começa uma coisa e onde termina outra, você pode ouvir Michel Teló com uma camisa do Che Guevara enquanto almoça no Mcdonalds e ninguém vai achar estranho. Será que faz algum sentido então ressuscitar as canções que simbolizam a luta contra o regime militar brasileiro de 64? Como instrumento político e engajador talvez não muito, mas como obra de arte e reflexão com certeza

Marya Bravo, figura conhecida dos musicais brasileiros resolveu mexer na caixa de vinis dos cabeludos descolados dos anos 60 e reuniu canções do panteão brasileiro de artistas como Chico Buarque, Ivan lins, Milton Nascimento e Gonzaguinha, mas sai de cena o violão e a percurssão de samba e entra a guitarra distorcida e a bateria no lugar. Uma idéia não exatamente nova, porém executada com muito sucesso. As canções realmente funcionam com a roupagem “rock paulera” dando uma visão mais agressiva e menos ambígua a canções que precisavam ser sutis em suas críticas, ou levariam seus autores a uma conversinha com o pessoal do DOPS.

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Baixe: Mirrorcreator

Goma Laca – Afrobrasilidades em 78 RPM

A curadoria Ventiladores permanece espalhando música espetacular aos 4 ventos e  dessa vez teremos uma coletânea feita por algumas das figuras brasileiras mais legais que já passaram por aqui.

GOMA-LACA é um centro de investigações dedicado ao universo da música brasileira feita na primeira metade do século XX e registrada nos antigos discos feitos de cera de carnaúba e goma-laca que giravam a 78 rotações por minuto. Idealizado por Biancamaria Binazzi e Ronaldo Evangelista que começaram a fazer um trabalho incrível de resgatar e catalogar todo um acervo que estava em risco de desaparecer com o tempo e ainda juntar diversos nomes da MPB atual para reinterpretar diversos clássicos e contar novamente essas histórias que juntam Brasil e África.


Mais informações: http://www.goma-laca.com

Baixe: Gomalaca

Criolo – Convoque Seu Buda

“Tem uns menino bom novo hoje aí na rua, pra lá e pra cá, que corre pelo certo..
Mas já tem uns também que eu vou te falar, viu.. só por Deus, viu! Ave Maria!”

Na verdade Criolo não é menino novo, Kleber Calvacante Gomes já estava com 36 anos quando estourou pro Brasil inteiro, mas que é bom, ah isso é! O sucessor do excelente Nó Na Orelha nos mostra que Criolo só começou a descarregar sua munição de pensamentos, há tantas idéias no disco que só depois de muita reflexão, análise e degustação que consegui ter uma noção do que esse Doido está querendo transmitir.

Qualquer tentativa de rotular o disco é desnecessária, há mais misturas até que o já bem eclético Nó Na Orelha, que tinha um pé no Rap e outro em vários lugares, em Convoque Seu Buda o Delivery muitas vezes foge do rap e se aproxima de uma declamação de poesia, não há delimitações para esse disco, a liberdade criativa é muito clara e o resultado final talvez não agrade quem buscava um disco com mais hits.

O disco ainda conta com diversas participações que enriquecem ainda mais o som, o destaque vai para Juçara Marçal em Fio de Prumo minha música favorita do disco que mistura Pade Onã, uma canção de Kiko Dinucci  com versos concretistas de Criolo e Cartão de Visitas, uma paródia à “high society” brasileira com o deboche ligado no máximo e participação de Tulipa Ruiz  tirando uma cantando no refrão “Acha que tá mamão, tá bom tá uma festa”

Para quem gosta de música com conteúdo esse é um prato pra você ficar digerindo aí por meses, a cada ouvida você percebe uma coisa diferente na produção de Daniel Ganjaman ou um novo significado por trás de uma frase solta do Criolo, rap feito cheio de referências, como deve ser, se ainda assim o estilo não lhe agradar ainda tem o Reggae Pé De Breque e o sambinha Fermento Pra Massa para agradar os incautos, longa vida a Criolex.


Baixe/Compre: http://www.criolo.net/convoqueseubuda

Lucas Santtana – Sobre Noites e Dias (tweet post)

O talentoso Lucas Santtana mantém a qualidade de seus discos com o Sobre Noites e Dias, mais experimental que O Deus Que Devasta Mas Também Cura, o novo album é uma demonstração de que o cantor continua agregando novas influências em seu som, mas sua assinatura musical está consolidada.

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Guilherme Kastrup – Kastrupismo

A música brasileira tem suas qualidades e seus defeitos, digamos que nem tudo nessa terra pode-se dizer que é feito com esmero e caímos muito na questão da diversidade sonora dita “popular”, mas não podemos negar que nossa música instrumental é uma das mais fodas que tem por aí, tanto no estilo quanto na técnica. Somos abençoados com artistas como João Donato, Hermeto Pascoal, Moacir Santos, Baden Powell, Antônio Carlos Jobim  entre muitos outros que tornaram-se refêrencias mundias de música de qualidade, mas como eu gosto de dizer para os meus amigos, tudo que é bom feito aqui no Brasil é para exportação, na música não é muito diferente.

Guilherme Kastrup conseguiu fazer uma das obras mais ricas de 2013 e não deixo de pensar que suas composições serão ouvidas muito menos do que merecem, mas estamos aqui para tentar espalhar música boa aos 4 ventos não? isso é Kastrupismo uma viagem à música popular brasileira, conectando o nordeste ao sudeste entre ritmos regionais, sons dos ecossistemas brasileiros e até batidas eletrônicas misturados a instrumentos clássicos. Tudo isso vem da cabeça do produtor e percussionista Guilherme Kastrup que já trabalhou com gente do nível de Chico César, Arnaldo Antunes e Gal Costa e agora lança seu primeiro disco autoral sem participações mirabolantes, mas de um olhar clínico de quem já faz seu ofício há muito tempo e tem uma relação íntima com a  música, sabendo o que quer com cada canção.

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Baixe: http://guilhermekastrup.com